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sexta-feira, 6 de março de 2026

O quê? Vocês vão me demitir por ser a única operador dos sistemas da empresa? - Capítulo 06.3

Capítulo 06.3 :: Sexo Não Importa! 

— Foi… difícil, né?

Duas silhuetas no sofá.

Sato, vestindo um cosplay que parecia roupa de anfitrião de clube noturno, e uma mulher pequena com a cabeça apoiada em seu colo Honma Yuri.

Depois de ouvir tudo, Sato sussurrou perto do ouvido dela.
Aquelas poucas palavras fizeram algo dentro de Yuri tremer.

— …Foi.

A voz gentil penetrou até o fundo do seu corpo.

— Eu me esforcei tanto!

As palavras que ela vinha reprimindo transbordaram.

— Eu não podia contar pra ninguém… Não queria perder… Aguentei tudo sozinha, o tempo todo…! Uwaaah!

— Pronto, pronto. Você foi incrível. Foi forte. Foi difícil, né?

Vestido como um anfitrião extravagante, mas agindo como uma santa, Sato acolheu Yuri.
Como se rompesse uma represa, ela deixou escapar toda a emoção acumulada.

— Quero esmagar ele!

— Eu sei. Dá vontade de derrubar mesmo.

— Quero fazer ele sentir todo o desespero do mundo!

— Entendo, entendo. Às vezes a raiva faz a gente imaginar coisas extremas demais, né?

— Isso ainda é pouco!

— Ok, ok… estamos no limite. A sua sede de vingança está forte demais.

No canto da sala, Suzuki tremia discretamente.

Mas Sato continuava firme, recebendo de frente aquela onda de ódio.

— Yuri-chan, dizem que quem amaldiçoa o outro cava duas covas.

— Cala a boca! Se for humilhada, são três!

— Opa, pensamentos intensos demais. Vamos respirar um pouco, tá?

— Não dááá!

Yuri acabou manchando o cosplay de Sato com lágrimas e maquiagem borrada.
Mesmo assim, o sorriso dela não se desfez.

— Yuri-chan, você está procurando outro emprego, não está?

— …Estou.

— Isso é muito certo da sua parte. Mas, se continuar assim, talvez a próxima empresa acabe sendo igual.

— …Por quê?

Sato inclinou-se e sussurrou:

— Yuri-chan. No seu trabalho atual, você já disse alguma vez que gostava de alguém lá?

— Claro que não.

— Por quê? Aquela pessoa já era ruim desde o primeiro dia?

— …Sim. É óbvio.

Desde o começo ela sentiu algo desagradável.
Uma malícia que desprezava os outros.

— Então… será que, para ele, você também parecia alguém fácil de implicar desde o começo?

— …

Ela não sabia.
E talvez nunca soubesse.

— Yuri-chan… você quer ser querida pelas pessoas?

— …Bom, se fosse possível.

— Então você precisa começar dizendo que gosta primeiro.

— …!

Aquilo atingiu em cheio.

Ela já tinha demonstrado respeito por pessoas admiráveis, sim.
Mas… já tinha dito em palavras que gostava de alguém?

— No próximo lugar, vamos gostar das pessoas sem medo.

— …Mas homens…

— Isso não tem nada a ver com gênero.

Sato olhou para cima.

Nos olhos dela havia lembranças os dias em que desenvolveu o sistema Orlabi com seus colegas.

— Quando alguém está dando o seu melhor, gênero não importa.

— …Sato-san.

Tinham acabado de se conhecer. Era a primeira conversa entre as duas.
Mas algo ali se conectava como se duas histórias de vida lutadas em silêncio se reconhecessem.

— Tcharam!

— Eita, o que foi agora?

Sato mostrou a tela do celular.

— …Um jogo?

— Uhum. Foi meu refúgio logo depois que saí do emprego anterior. Um jogo divino.

— Espera, essa introdução ficou pesada.

— Não espera! A empresa que fez esse jogo é uma startup. E eles estão contratando novatos.

— Sério?

Os olhos de Yuri brilharam.

— Vamos nos vender!

— …Mas será que eu tenho nível pra isso?

Startup.
Na cabeça dela, era sinônimo de paixão e talento.

— Vamos fazer um aplicativo como portfólio!

— …Mas eu não tenho tempo pra isso.

Esse era o maior problema.

Precisa de dinheiro para procurar emprego.
Precisa de dinheiro para viver.
Enquanto não conseguir outro trabalho, não pode sair do atual.
Não sobra tempo para nada novo.

— Então faz um bico!

— …Um bico?

Yuri abaixou o olhar.

— …Não é meio humilhante?

— Por quê?

— Eu disse que ia sair daquele lugar horrível e conseguir outro emprego rápido… Eu me formei na universidade, sabia?

— E daí?

Sato respondeu sem hesitar.

— …Mas isso não seria fugir?

Yuri insistiu.

Sato balançou a cabeça lentamente.

— Fugir também pode ser certo. Se continuar nesse sofrimento, você vai parar de conseguir andar. Mas agora ainda dá tempo. Justamente agora.

— …

“Eu não vou perder.”
Esse sentimento a sustentou até ali.
Era a última coisa que restava em seu coração desgastado.

— Conflitos só acontecem entre pessoas do mesmo nível.

— Ouvi isso num anime.

Sato continuou:

— É perda de tempo bater de frente com quem só quer te puxar pra baixo. Vamos mudar de caminho. Talvez você dê um pequeno passo atrás… mas, se continuar olhando pra frente, vai chegar mais longe do que está agora. Eu consegui.

— …Mais longe do que agora.

Yuri ergueu o rosto.

Sato sorriu com ternura.

— Você consegue, Yuri-chan.

Uma luz voltou aos olhos dela.

— Certo! Vamos criar o aplicativo!

— …Você quase tropeçou na palavra.

— Ei, não repara!

Pela primeira vez, Yuri sorriu.

— Android ou iOS, qual você já mexeu?

— Android, por hobby, algumas vezes…

— Então é isso! Já tem ideia?

— Tenho alguns projetos rejeitados…

— Perfeito! Vamos lá!

— O-ok!

As duas começaram a trabalhar no aplicativo.

Suzuki observava em silêncio.

Ele ainda tinha dúvidas sobre até onde deveriam se envolver na vida dos alunos.
Mas, ao ver Yuri digitando com determinação e Sato orientando ao lado, pensou:

…Ela é realmente incrível.

Sempre foi assim.


— Muito obrigada por hoje.

— Desculpa não termos terminado o app.

— Não! Eu vou continuar!

— Estarei aqui. Pode voltar quando quiser.

— Sim!

Yuri então comentou:

— Você pode tirar o casaco?

— Posso. Por quê?

Sato tirou normalmente.

Yuri riu de leve.

— Como eu pensei… não combina com a imagem.

Ela se levantou.

Sem olhar para trás, começou a caminhar.

Suzuki a chamou para tratar de questões formais questionário, inscrição, conversa de negócios.
Ela disse que não gostava de homens, mas ouviu atentamente.

Gênero não importa.

Quando alguém está se esforçando de verdade, só olha para frente.


— Vou dar uma volta maior agora.

Primeiro, pedir demissão.
Depois, trabalhar meio período.
Terminar o aplicativo.
Conseguir um novo emprego.

Ou talvez já tentar entrevista.

Tem muita coisa pra fazer.

Vencer ou perder para aquele chefe… tanto faz.

Aliás, sem mim aquele setor não funciona mesmo.
Ele que se vire.

…É uma pena que eu não vá ver o caos acontecer.

Mas já decidi: não vou mais desperdiçar tempo pensando neles.

Eu vou mais longe.

Muito mais longe do que agora!


Depois que Yuri foi embora, Suzuki perguntou:

— Sato-san… aquilo que você disse, “porque eu consegui”… foi sobre seu emprego anterior?

— Ah… aquilo?

Ela pensou um pouco.

— Programação vive travando, sabe?

— Travando?

— Quando você acha que não vai sair do lugar.

— Ah…

Pressentimento ruim.

— Quando penso que não tem mais jeito, eu mudo rápido de estratégia. Geralmente funciona.

— …Ou seja?

— É uma escola de programação! Preciso ensinar mentalidade também!

Suzuki suspirou.

— …Não me diga que isso não foi a primeira vez que você fez algo assim.

— É super comum!

Ela declarou, orgulhosa:

— Desde que comecei a usar cosplay, ninguém mais foi parar no hospital! Pode me chamar de santa!

— …Entendi.

Talvez fosse melhor não ter perguntado.


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