Páginas

sexta-feira, 6 de março de 2026

O quê? Vocês vão me demitir por ser a única operador dos sistemas da empresa? - Capítulo 06.4

Capítulo 06.4 : Não Tem Nada a Ver com Gênero! — Fim

— Você sabe por que foi chamada aqui?

— …Seria por causa do aumento nas horas extras?

Uma das muitas salas de reunião da empresa.

O chefe de seção conhecido por repetir inúmeros casos de assédio havia sido convocado pelo diretor, que raramente aparecia por ali.

Havia um problema estrutural.

A organização à qual o chefe Hara pertencia havia se tornado um lugar onde nada chegava aos ouvidos de pessoas com mais poder que ele.
Ou melhor Hara havia manipulado a política interna da empresa justamente para que fosse assim.

Hara era confiável.

Tinha muitos resultados.

Mesmo após tornar-se chefe de seção, continuava entregando resultados concretos. As horas extras do departamento eram baixas e a taxa de demissão também.

Por isso, o diretor confiava nos relatórios periódicos que recebia dele e acreditava que tudo estava sendo administrado adequadamente.

— Ouvi dizer que um novato pediu demissão no mês passado.

— …Ah, sim. Era uma pessoa bastante obstinada, frequentemente entrava em conflito com os colegas. Um funcionário problemático em vários aspectos. Eu tentei intervir e mediar a situação, mas… infelizmente não tive sucesso.¹

Como ele consegue mentir com tanta naturalidade…

Foi o que o diretor pensou, sabendo de tudo.

Serviço de demissão por procuração².

A baixa taxa de rotatividade do departamento não existia porque os funcionários estavam satisfeitos.

Era porque, até então, Hara simplesmente não aceitava pedidos de demissão.

Ele havia recusado a carta de desligamento de Yuli Honma.

Como resultado, Yuji contratou profissionais especializados em intermediar demissões.

Eram pessoas de fora da empresa, com conhecimento jurídico.
Mesmo com toda a influência política de Hara, ele não conseguiu impedir a saída.

Mas, para ele, a história terminava aí.

Na cabeça de Hara, apenas um novato tinha pedido demissão.

— Eu não queria acreditar — disse o diretor, com expressão amarga.
— Trabalhamos juntos há muito tempo. Eu realmente confiava em você.

Hara sentiu arrepios.

Era como se alarmes soassem em todo o seu corpo.

— Recebi uma punição disciplinar. Fui rebaixado. 

Hara ficou em silêncio.

Ele sabia o motivo.
Mas sua mente se recusava a aceitar.

Isso era impossível.

Não podia ser.

Algo assim jamais deveria acontecer.

— Coincidentemente, agora abriu uma vaga de chefe de seção.

— …Isso… quer dizer que…

O diretor encarou Hara como um predador.

— Quantos nomes de ilhas você consegue citar?

— …Ilhas?

— Isso mesmo. Ilhas. Na verdade, eu tenho algumas fábricas em algumas ilhas. Nada muito sofisticado, mas ainda assim fábricas.

— D-diretor! Por favor, me dê uma chance!

Hara empalideceu.

— Não se preocupe. Você não vai ficar sozinho. Vou mandar alguns dos seus queridos subordinados junto com você.
Tem também vários “veteranos” lá que vão cuidar bem de você³.

— Eu vou trazê-los de volta!

— Ah é? Consegue mesmo?

— Com certeza! Vou encobrir tudo!

Hara implorava desesperadamente.

O diretor apenas o observava com um olhar de pena.


— Terminei a verificação. Está muito bom.

Já fazia um mês desde que conheci Sato.

Agora eu trabalhava na empresa de jogos para a qual ela havia me recomendado.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Sobre a nova fase que estamos testando…

Era um ambiente de trabalho que lembrava clubes escolares do ensino médio.

A média de idade era por volta dos trinta anos.
Doze funcionários incluindo eu trabalhavam ali do amanhecer até a noite.

— Tenho mais uma coisa. Gostaria de fazer uma proposta sobre o balanceamento do jogo. Poderia me dar uma hora hoje às quinze?

— Claro. Vou reservar o horário.

— Obrigada. Então falamos depois.

Virei-me e segurei um bocejo.

Ultimamente estou extremamente privada de sono.

A quantidade e qualidade do trabalho não se comparam ao meu emprego anterior.

Naturalmente, as horas extras aumentaram.

E, para completar, meu salário diminuiu.

Se olhar só os números, é horrível.

…Certo, terminar os testes restantes, organizar aquele documento, depois lidar com as mudanças de especificação…
Ah, sério! Mudam as especificações o tempo todo!

Reclamando mentalmente, voltei para minha mesa.

— Sato, depois posso falar com você?

— Sim, claro. Te chamo no chat.

Sato.

Ao ouvir esse nome, parei.

Claro que era outra pessoa.

É o sobrenome mais comum do Japão.

Mesmo assim…

Uma lembrança surgiu.

"No próximo lugar, vou demonstrar mais meus sentimentos."

Virei-me.

Quase por reflexo, chamei:

— Co...Com licensa… Watanabe!

— Hm? Precisa de mais alguma coisa?

— Não… é que…

Não, não, impossível.

Dizer algo assim no meio do trabalho?
De repente?
Tipo… dizer que gosta?

Impossível.

— É que…

Mas comecei a pensar.

O que ela teria achado da minha atitude antes?

Eu falei de forma tão mecânica.

Claro, estamos ocupados.

Não há tempo para conversa.

Mesmo assim…

— Obrigada por revisar.

— Hahaha, que isso? Não precisava.

— Achei que era melhor dizer corretamente.

— Entendo. Eu que agradeço, Honma. É ótimo ter alguém tão competente aqui.

— Fico honrada.

Meu rosto ficou quente.

Que sensação estranha.

— Eu também… bem…

Mesmo assim consegui dizer:

— Acho… muito admirável a rapidez com que você trabalha. Conto com você daqui pra frente.

— …Hahaha. O que foi isso de repente? Você é tsundere?⁴

— N-não ria!

— Tsundere! — provocaram os colegas.

— Calem a boca!

Respondi como uma criança, irritada.

— Vou ao banheiro!

Isso é estranho.

Todos aqui são adultos…

O que é esse clima?

Eu nunca tinha experimentado algo assim.

Trabalhar…

Pode ser tão divertido?


— Chamada recebida. Número oculto.

Fui mesmo ao banheiro.

Estava tentando me recompor diante do espelho quando meu celular vibrou.

Hesitei, mas atendi.

Como o número era oculto, não falei nada primeiro.

Depois de alguns segundos, ouvi uma voz masculina.

— Este telefone pertence à senhora Honma?

— Sim, sou eu.

Quem seria?

— Faz tempo. Aqui é Hara. Eu… gostaria de pedir sinceras desculpas.

Hara…?

O quê?!

Aquele chefe maldito?!

Que nojo. Até o jeito de falar é diferente.

— Eu percebi meus erros. Gostaria de me encontrar pessoalmente para me desculpar.

Isso parece mais golpe telefônico do que pedido de desculpa.

— Olha… isso é impossível — ah.

Droga.

Respondi sem pensar.

Ele deve estar furioso agora.

Silêncio.

Um suspiro.

— Compreendo. Considerando minhas ações, essa resposta é natural. Mas eu juro por Deus que vou mudar. Por favor, me dê uma chance de me desculpar.

A voz dele tremia.

Você nem acredita em Deus.

— Honma Yuji. Eu realmente… realmente sinto muito. Eu estava errado.

Se alguém pede desculpas com tanta insistência…

Talvez eu até escutasse.

Mas a verdade era outra.

Um mês atrás, eu queria que ele experimentasse todo o desespero possível.

E aparentemente…

Esse sentimento não mudou nada.

— Posso desligar?

— Espere!

Se minha previsão estivesse correta…

Esse lixo agora falaria da punição que recebeu.

Eu queria ouvir.

Queria saber o que aconteceu com ele.

*"Quem amaldiçoa alguém cava duas covas."*⁵

Sato, me desculpe.

Hoje…

Eu vou ser má.

— Eu tenho família.

— Entendo.

— Se você não voltar, vamos ser separados.

— Você vai ser transferido? Para onde?

— …Alguma ilha.

Eu mordi o lábio.

Por pouco.

Se tivesse demorado meio segundo a mais, teria explodido em risada.

Porque… sério.

Exílio numa ilha?

Isso ainda existe?

— Por favor. Eu estava errado. Faço qualquer coisa. Minha filha vai entrar no ginásio agora.

— Entendo. Deve ser difícil.

— Um milhão de ienes. O que acha? Posso aprovar qualquer projeto seu também. Diga o que quiser!

— Meu desejo?

Pensei um pouco.

— Quero uma vídeo-carta.

— …O quê?

— Mostrando sua vida na ilha.

— Espere! Reconsidere! Qualquer coisa!

Ele parecia tão desesperado…

Que por um instante fiquei com pena.

Então decidi encerrar.

— Chefe, escute.

— O quê?

Respirei fundo.

Aproximei o celular da boca e disse:

— Bem feito⁴.

Desliguei imediatamente.

Bloqueei o número.

Bloqueei também chamadas anônimas.

Coloquei o celular no bolso e olhei para meu reflexo no espelho.

— …Estou sorrindo demais.

Não consegui me conter.

Comecei a rir.

Rir alto.

Se alguém entrasse agora, como eu explicaria?

Não sei.

Não importa.

Porque…

Isso é simplesmente engraçado demais.

É delicioso.

Estou feliz…

Mas as lágrimas não param.

— Droga… minha maquiagem.

Foi difícil.

Muito difícil.

Eu não via futuro.

Não conseguia mudar de emprego.

Ninguém me ajudou.

Mas agora…

Eu estou rindo.

Estou seguindo em frente.

E isso me enche de orgulho.


— Olha, a tsundere voltou… desculpa, você chorou porque odiou?

— Não, não é isso.

Olhei ao redor do escritório e ergui o peito com orgulho.

— Achei que tinha aumentado demais minha popularidade, então fui ali diminuir meu índice de beleza!⁶

— Hahaha! O que é isso?

— Vocês estão rindo demais! Se ficarem enrolando, vão ter que fazer hora extra!

O escritório parecia um clube escolar.

Voltei para minha mesa.

— É um ótimo lugar para trabalhar.

— …Hmm?

O homem ao meu lado falou comigo.

Quem é esse senhor mesmo?

— Ah, desculpe. Ignore.

— Não… ah, Matsuzaki.

Vi o nome no crachá.

Ele tinha entrado na empresa pouco antes de mim.

— Você mudou de emprego recentemente, certo?

— Ouviu isso de alguém?

— Watanabe comentou na entrevista. Disse que muitos profissionais fortes estão mudando de empresa.

— Hahaha… “fortes”, é?

Ele levantou o rosto, pensativo.

— O presidente mudou. E o funcionário que mais se esforçava foi demitido. Fiquei furioso.

— Entendo.

— Em termos modernos… fiquei mega ultrarrage mode⁷.

A expressão era um pouco antiquada.

Mesmo assim respondi:

— Entendo…

Ele parecia triste.

Então de repente sorriu, como uma criança travessa.

— Mas tem um detalhe curioso. A pessoa demitida trabalhava… usando cosplay.

— Cosplay?

Não consegui evitar rir.

— Na verdade… o cosplay foi o motivo da minha mudança de emprego também.

— Sério? Quero ouvir essa história.

— Era um cosplay de qualidade horrível. Sem amor nenhum pelo personagem. Pensei: “Quem é esse cara?”. Minha primeira impressão foi péssima…

E então comecei a contar sobre Sato.

Foi assim que comecei a conversar mais com Matsuzaki.

Ele era um pouco mais velho que o resto da equipe.

Muito talentoso, mas às vezes parecia deslocado.

Isso me lembrava um pouco de mim mesma no passado.

Então comecei a puxar conversa.

Perguntava coisas que não entendia.

E ensinava cultura jovem — como redes sociais.

Um novo lugar.

Um escritório que parecia um clube escolar.

Nosso primeiro jogo foi um sucesso inesperado.

Agora todos estão animados para fazer o segundo.

O projeto é grande demais para nossa equipe atual.

Fazemos horas extras todos os dias.

Alguns até dormem no escritório.

Honestamente…

É cansativo.

Estou sempre com sono.

Minhas olheiras estão ficando cada vez mais escuras.

Mesmo assim…

Esses dias são maravilhosos.

Realmente.

Maravilhosos demais.

Página Anterior】【Próxima


Notas do Tradutor

¹ 忸怩たる思い (jikujitaru omoi) — expressão formal japonesa que significa “sentir profunda vergonha ou arrependimento”. Usada ironicamente aqui, pois o personagem está mentindo.

² Serviço de demissão por procuração (退職代行) — serviço real no Japão. Empresas especializadas entram em contato com o empregador para formalizar a demissão quando o funcionário não consegue sair devido à pressão corporativa.

³ “Irmãos mais velhos que vão cuidar de você” — insinuação ameaçadora. Sugere que Hara será enviado para um ambiente hostil de trabalho manual ou controlado por pessoas duras.

Tsundere — arquétipo popular em anime/mangá: alguém que inicialmente age de forma fria ou agressiva, mas na verdade tem sentimentos gentis.

“Quem amaldiçoa alguém cava duas covas” (人を呪わば穴二つ) — provérbio japonês que significa que quem busca vingança também acaba se prejudicando.

“Diminuir meu índice de beleza” (顔面偏差値) — gíria japonesa baseada em “偏差値” (nota de ranking escolar). Literalmente significa “pontuação de beleza do rosto”.

激おこぷんぷん丸 — meme japonês antigo da internet que significa algo como “super mega bravo”. Usado de forma humorística e um pouco antiquada.


Nenhum comentário:

Postar um comentário