Capítulo 06.4 : Não Tem Nada a Ver com Gênero! — Fim
— Você sabe por que foi chamada aqui?
— …Seria por causa do aumento nas horas extras?
Uma das muitas salas de reunião da empresa.
O chefe de seção conhecido por repetir inúmeros casos de assédio havia sido convocado pelo diretor, que raramente aparecia por ali.
Havia um problema estrutural.
A organização à qual o chefe Hara pertencia havia se tornado um lugar onde nada chegava aos ouvidos de pessoas com mais poder que ele.
Ou melhor Hara havia manipulado a política interna da empresa justamente para que fosse assim.
Hara era confiável.
Tinha muitos resultados.
Mesmo após tornar-se chefe de seção, continuava entregando resultados concretos. As horas extras do departamento eram baixas e a taxa de demissão também.
Por isso, o diretor confiava nos relatórios periódicos que recebia dele e acreditava que tudo estava sendo administrado adequadamente.
— Ouvi dizer que um novato pediu demissão no mês passado.
— …Ah, sim. Era uma pessoa bastante obstinada, frequentemente entrava em conflito com os colegas. Um funcionário problemático em vários aspectos. Eu tentei intervir e mediar a situação, mas… infelizmente não tive sucesso.¹
Como ele consegue mentir com tanta naturalidade…
Foi o que o diretor pensou, sabendo de tudo.
Serviço de demissão por procuração².
A baixa taxa de rotatividade do departamento não existia porque os funcionários estavam satisfeitos.
Era porque, até então, Hara simplesmente não aceitava pedidos de demissão.
Ele havia recusado a carta de desligamento de Yuli Honma.
Como resultado, Yuji contratou profissionais especializados em intermediar demissões.
Eram pessoas de fora da empresa, com conhecimento jurídico.
Mesmo com toda a influência política de Hara, ele não conseguiu impedir a saída.
Mas, para ele, a história terminava aí.
Na cabeça de Hara, apenas um novato tinha pedido demissão.
— Eu não queria acreditar — disse o diretor, com expressão amarga.
— Trabalhamos juntos há muito tempo. Eu realmente confiava em você.
Hara sentiu arrepios.
Era como se alarmes soassem em todo o seu corpo.
— Recebi uma punição disciplinar. Fui rebaixado.
Hara ficou em silêncio.
Ele sabia o motivo.
Mas sua mente se recusava a aceitar.
Isso era impossível.
Não podia ser.
Algo assim jamais deveria acontecer.
— Coincidentemente, agora abriu uma vaga de chefe de seção.
— …Isso… quer dizer que…
O diretor encarou Hara como um predador.
— Quantos nomes de ilhas você consegue citar?
— …Ilhas?
— Isso mesmo. Ilhas. Na verdade, eu tenho algumas fábricas em algumas ilhas. Nada muito sofisticado, mas ainda assim fábricas.
— D-diretor! Por favor, me dê uma chance!
Hara empalideceu.
— Não se preocupe. Você não vai ficar sozinho. Vou mandar alguns dos seus queridos subordinados junto com você.
Tem também vários “veteranos” lá que vão cuidar bem de você³.
— Eu vou trazê-los de volta!
— Ah é? Consegue mesmo?
— Com certeza! Vou encobrir tudo!
Hara implorava desesperadamente.
O diretor apenas o observava com um olhar de pena.
— Terminei a verificação. Está muito bom.
Já fazia um mês desde que conheci Sato.
Agora eu trabalhava na empresa de jogos para a qual ela havia me recomendado.
— Posso fazer uma pergunta?
— Claro.
— Sobre a nova fase que estamos testando…
Era um ambiente de trabalho que lembrava clubes escolares do ensino médio.
A média de idade era por volta dos trinta anos.
Doze funcionários incluindo eu trabalhavam ali do amanhecer até a noite.
— Tenho mais uma coisa. Gostaria de fazer uma proposta sobre o balanceamento do jogo. Poderia me dar uma hora hoje às quinze?
— Claro. Vou reservar o horário.
— Obrigada. Então falamos depois.
Virei-me e segurei um bocejo.
Ultimamente estou extremamente privada de sono.
A quantidade e qualidade do trabalho não se comparam ao meu emprego anterior.
Naturalmente, as horas extras aumentaram.
E, para completar, meu salário diminuiu.
Se olhar só os números, é horrível.
…Certo, terminar os testes restantes, organizar aquele documento, depois lidar com as mudanças de especificação…
Ah, sério! Mudam as especificações o tempo todo!
Reclamando mentalmente, voltei para minha mesa.
— Sato, depois posso falar com você?
— Sim, claro. Te chamo no chat.
Sato.
Ao ouvir esse nome, parei.
Claro que era outra pessoa.
É o sobrenome mais comum do Japão.
Mesmo assim…
Uma lembrança surgiu.
"No próximo lugar, vou demonstrar mais meus sentimentos."
Virei-me.
Quase por reflexo, chamei:
— Co...Com licensa… Watanabe!
— Hm? Precisa de mais alguma coisa?
— Não… é que…
Não, não, impossível.
Dizer algo assim no meio do trabalho?
De repente?
Tipo… dizer que gosta?
Impossível.
— É que…
Mas comecei a pensar.
O que ela teria achado da minha atitude antes?
Eu falei de forma tão mecânica.
Claro, estamos ocupados.
Não há tempo para conversa.
Mesmo assim…
— Obrigada por revisar.
— Hahaha, que isso? Não precisava.
— Achei que era melhor dizer corretamente.
— Entendo. Eu que agradeço, Honma. É ótimo ter alguém tão competente aqui.
— Fico honrada.
Meu rosto ficou quente.
Que sensação estranha.
— Eu também… bem…
Mesmo assim consegui dizer:
— Acho… muito admirável a rapidez com que você trabalha. Conto com você daqui pra frente.
— …Hahaha. O que foi isso de repente? Você é tsundere?⁴
— N-não ria!
— Tsundere! — provocaram os colegas.
— Calem a boca!
Respondi como uma criança, irritada.
— Vou ao banheiro!
Isso é estranho.
Todos aqui são adultos…
O que é esse clima?
Eu nunca tinha experimentado algo assim.
Trabalhar…
Pode ser tão divertido?
— Chamada recebida. Número oculto.
Fui mesmo ao banheiro.
Estava tentando me recompor diante do espelho quando meu celular vibrou.
Hesitei, mas atendi.
Como o número era oculto, não falei nada primeiro.
Depois de alguns segundos, ouvi uma voz masculina.
— Este telefone pertence à senhora Honma?
— Sim, sou eu.
Quem seria?
— Faz tempo. Aqui é Hara. Eu… gostaria de pedir sinceras desculpas.
Hara…?
O quê?!
Aquele chefe maldito?!
Que nojo. Até o jeito de falar é diferente.
— Eu percebi meus erros. Gostaria de me encontrar pessoalmente para me desculpar.
Isso parece mais golpe telefônico do que pedido de desculpa.
— Olha… isso é impossível — ah.
Droga.
Respondi sem pensar.
Ele deve estar furioso agora.
Silêncio.
Um suspiro.
— Compreendo. Considerando minhas ações, essa resposta é natural. Mas eu juro por Deus que vou mudar. Por favor, me dê uma chance de me desculpar.
A voz dele tremia.
Você nem acredita em Deus.
— Honma Yuji. Eu realmente… realmente sinto muito. Eu estava errado.
Se alguém pede desculpas com tanta insistência…
Talvez eu até escutasse.
Mas a verdade era outra.
Um mês atrás, eu queria que ele experimentasse todo o desespero possível.
E aparentemente…
Esse sentimento não mudou nada.
— Posso desligar?
— Espere!
Se minha previsão estivesse correta…
Esse lixo agora falaria da punição que recebeu.
Eu queria ouvir.
Queria saber o que aconteceu com ele.
*"Quem amaldiçoa alguém cava duas covas."*⁵
Sato, me desculpe.
Hoje…
Eu vou ser má.
— Eu tenho família.
— Entendo.
— Se você não voltar, vamos ser separados.
— Você vai ser transferido? Para onde?
— …Alguma ilha.
Eu mordi o lábio.
Por pouco.
Se tivesse demorado meio segundo a mais, teria explodido em risada.
Porque… sério.
Exílio numa ilha?
Isso ainda existe?
— Por favor. Eu estava errado. Faço qualquer coisa. Minha filha vai entrar no ginásio agora.
— Entendo. Deve ser difícil.
— Um milhão de ienes. O que acha? Posso aprovar qualquer projeto seu também. Diga o que quiser!
— Meu desejo?
Pensei um pouco.
— Quero uma vídeo-carta.
— …O quê?
— Mostrando sua vida na ilha.
— Espere! Reconsidere! Qualquer coisa!
Ele parecia tão desesperado…
Que por um instante fiquei com pena.
Então decidi encerrar.
— Chefe, escute.
— O quê?
Respirei fundo.
Aproximei o celular da boca e disse:
— Bem feito⁴.
Desliguei imediatamente.
Bloqueei o número.
Bloqueei também chamadas anônimas.
Coloquei o celular no bolso e olhei para meu reflexo no espelho.
— …Estou sorrindo demais.
Não consegui me conter.
Comecei a rir.
Rir alto.
Se alguém entrasse agora, como eu explicaria?
Não sei.
Não importa.
Porque…
Isso é simplesmente engraçado demais.
É delicioso.
Estou feliz…
Mas as lágrimas não param.
— Droga… minha maquiagem.
Foi difícil.
Muito difícil.
Eu não via futuro.
Não conseguia mudar de emprego.
Ninguém me ajudou.
Mas agora…
Eu estou rindo.
Estou seguindo em frente.
E isso me enche de orgulho.
— Olha, a tsundere voltou… desculpa, você chorou porque odiou?
— Não, não é isso.
Olhei ao redor do escritório e ergui o peito com orgulho.
— Achei que tinha aumentado demais minha popularidade, então fui ali diminuir meu índice de beleza!⁶
— Hahaha! O que é isso?
— Vocês estão rindo demais! Se ficarem enrolando, vão ter que fazer hora extra!
O escritório parecia um clube escolar.
Voltei para minha mesa.
— É um ótimo lugar para trabalhar.
— …Hmm?
O homem ao meu lado falou comigo.
Quem é esse senhor mesmo?
— Ah, desculpe. Ignore.
— Não… ah, Matsuzaki.
Vi o nome no crachá.
Ele tinha entrado na empresa pouco antes de mim.
— Você mudou de emprego recentemente, certo?
— Ouviu isso de alguém?
— Watanabe comentou na entrevista. Disse que muitos profissionais fortes estão mudando de empresa.
— Hahaha… “fortes”, é?
Ele levantou o rosto, pensativo.
— O presidente mudou. E o funcionário que mais se esforçava foi demitido. Fiquei furioso.
— Entendo.
— Em termos modernos… fiquei mega ultrarrage mode⁷.
A expressão era um pouco antiquada.
Mesmo assim respondi:
— Entendo…
Ele parecia triste.
Então de repente sorriu, como uma criança travessa.
— Mas tem um detalhe curioso. A pessoa demitida trabalhava… usando cosplay.
— Cosplay?
Não consegui evitar rir.
— Na verdade… o cosplay foi o motivo da minha mudança de emprego também.
— Sério? Quero ouvir essa história.
— Era um cosplay de qualidade horrível. Sem amor nenhum pelo personagem. Pensei: “Quem é esse cara?”. Minha primeira impressão foi péssima…
E então comecei a contar sobre Sato.
Foi assim que comecei a conversar mais com Matsuzaki.
Ele era um pouco mais velho que o resto da equipe.
Muito talentoso, mas às vezes parecia deslocado.
Isso me lembrava um pouco de mim mesma no passado.
Então comecei a puxar conversa.
Perguntava coisas que não entendia.
E ensinava cultura jovem — como redes sociais.
Um novo lugar.
Um escritório que parecia um clube escolar.
Nosso primeiro jogo foi um sucesso inesperado.
Agora todos estão animados para fazer o segundo.
O projeto é grande demais para nossa equipe atual.
Fazemos horas extras todos os dias.
Alguns até dormem no escritório.
Honestamente…
É cansativo.
Estou sempre com sono.
Minhas olheiras estão ficando cada vez mais escuras.
Mesmo assim…
Esses dias são maravilhosos.
Realmente.
Maravilhosos demais.
Notas do Tradutor
¹ 忸怩たる思い (jikujitaru omoi) — expressão formal japonesa que significa “sentir profunda vergonha ou arrependimento”. Usada ironicamente aqui, pois o personagem está mentindo.
² Serviço de demissão por procuração (退職代行) — serviço real no Japão. Empresas especializadas entram em contato com o empregador para formalizar a demissão quando o funcionário não consegue sair devido à pressão corporativa.
³ “Irmãos mais velhos que vão cuidar de você” — insinuação ameaçadora. Sugere que Hara será enviado para um ambiente hostil de trabalho manual ou controlado por pessoas duras.
⁴ Tsundere — arquétipo popular em anime/mangá: alguém que inicialmente age de forma fria ou agressiva, mas na verdade tem sentimentos gentis.
⁵ “Quem amaldiçoa alguém cava duas covas” (人を呪わば穴二つ) — provérbio japonês que significa que quem busca vingança também acaba se prejudicando.
⁶ “Diminuir meu índice de beleza” (顔面偏差値) — gíria japonesa baseada em “偏差値” (nota de ranking escolar). Literalmente significa “pontuação de beleza do rosto”.
⁷ 激おこぷんぷん丸 — meme japonês antigo da internet que significa algo como “super mega bravo”. Usado de forma humorística e um pouco antiquada.
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