Capítulo 07.3 : A teoria da força de vontade já está ultrapassada?
Tudo o que ele disse estava correto.
Mas ele estava enganado em uma coisa.
Este não é um mundo tão fácil que alguém que não consegue aprender por conta própria consiga sobreviver. Por isso, seria melhor procurar outro caminho foi o que ele disse.
Mas que outro caminho seria esse?
Existe mesmo algum caminho onde basta esperar que os outros te deem algo?
Eu conheço esse caminho.
É aqui.
Um lugar onde você é contratado por um salário baixo que mal dá para sobreviver ao dia seguinte, trabalhando sob as ordens de um chefe mais novo que você.
Eu queria mudar.
Hoje eu vim aqui esperando que algo pudesse se tornar um ponto de virada.
Mas no final, o resultado foi apenas ouvir a realidade de alguém que provavelmente é mais jovem que eu.
Sim, ele está enganado.
Tudo o que ele disse…
Eu já sei melhor do que ninguém.
Tenho trinta anos.
Eu sei muito bem por que sou um fracasso.
A sociedade não está errada.
O ambiente não está errado.
A culpa é totalmente minha de alguém que só sabe abrir a boca como um peixe dourado esperando comida.
Eu sei disso.
Mas mesmo assim, não consigo fazer nada.
É tão miserável que me dá náusea.
Quando eu era criança, talvez pudesse ter colocado esses sentimentos para fora.
Mas agora que sou adulto…
só posso engoli-los.
“……”
Levantei-me em silêncio.
E quando me virei para sair—
Aquilo aconteceu.
“ANTIGOOOOOOOO!!!”
Um grito tão alto que minha cabeça ficou completamente em branco.
Por um momento pensei que o som tivesse vindo de dentro de mim.
Mas não.
Era ela.
A mulher responsável pela entrevista.
Ela estava sentada quieta até então, mas agora gritava como se estivesse explodindo.
Eu fiquei paralisado.
O senhor Suzuki, que estava ao lado dela conversando calmamente até então, também ficou boquiaberto.
— Ei, você!
Ela apontou o dedo diretamente para mim.
— Estou falando com você! Está ouvindo!?
— S-sim…
Respondi assustado.
Eu não fazia ideia do que estava acontecendo.
Suzuki tentou intervir.
— Sato, o que houve de repente?
— Cala a boca! Só observa!
— Não posso fazer isso. Explique.
— O discurso de força de vontade do Ken-chan é antigo!
Ficar todo orgulhoso dando sermão é ridículo!
Ele já sabe tudo isso!
Educação é ajudar a resolver o problema, não apontá-lo!
Cada palavra dela atingia meu peito.
Seu grito cheio de emoção fazia meu coração tremer sem pedir permissão.
O que é isso?
Eu não conseguia explicar.
— Sato, nossa empresa não aceita pessoas sem experiência.
Esse é um ponto que não podemos negociar.
Ajudar alguém que não consegue começar algo sozinho não ajuda essa pessoa no longo prazo.
— SEU CEGO!!!
— O quê!? Cego!?
De alguma forma, aquilo foi estranhamente satisfatório.
Suzuki não era uma pessoa má.
Ele era alguém forte o suficiente para ser duro pensando no bem dos outros.
Mas também era alguém que sempre parecia acima de mim.
Vê-lo tão surpreso assim…
me deixava estranhamente animado.
— Ei, você!
— S-sim!
— Já tentou ler um livro introdutório?
— Bem… eu…
— Você já abriu um, não entendeu nada e fechou silenciosamente, não foi!?
— …Sim.
Ela continuou perguntando.
— Você tem computador?
— …Não.
— Está frustrado!?
— …O quê?
— Está frustrado por ouvir tudo isso!?
— …Um pouco.
— Não ouvi!
Foi como acender um fósforo antigo.
— …Estou frustrado.
— MAIS!
Ela era o oposto de mim.
Uma pessoa do lado dos fortes, que conseguem aprender sozinhos.
Já ouvi sermões muitas vezes.
“Eu sei disso.”
Sempre engolia meus sentimentos, como o uivo de um cão derrotado.
Até que um dia parei de sentir qualquer coisa.
Por isso foi a primeira vez.
A primeira vez que as palavras de alguém forte aqueceram meu peito.
— Estou frustrado!!
— MAIS!!!
Talvez fosse a primeira vez na vida que eu dizia isso em voz alta.
— ESTOU FRUSTRADO!!!
Ela então disse:
— Então vamos fazer!
— Fazer o quê?
— Vou te ensinar o básico agora! Senta aí!
— S-sim!
Ela pegou papel e caneta e começou a ensinar programação.
Ela colocou uma moeda na mesa.
— Imagine que temos uma moeda.
— …
— Se der cara, eu tiro a roupa.
— Hã!? Vai tirar!?
— Não cria expectativa! É só exemplo!
Eu ri sem graça.
— Em forma de programa fica assim:
Moeda = cara ou coroa
Se moeda = cara
tirar roupa
— Entendi…
— Em Python fica assim:
moeda = random.randint(0,1)
if moeda == 1:
tirar_roupa()
— …
— Mas assim fico nua metade das vezes.
— Verdade…
— Então usamos um dado.
Dado = 1 a 6
Se dado = 1
tirar roupa
— Entendi…
— Agora escreve isso em Python.
— Eu!?
Depois de pensar, escrevi:
dado = random.randint(1,6)
if dado = 1:
tirar_roupa()
— Quase! No if são dois iguais!
Corrigi.
— Só uma vez basta?
— Como assim?
— Não deveria repetir até tirar a roupa?
— Isso não vira assédio?
— Que pervertido!
Ela escreveu “repetir” no começo.
— O que acontece?
— Vai repetir…
— Até quando?
— …Para sempre?
— Certo! Você tem talento!
Depois de mais alguns ajustes, ficou assim:
while 1:
dado = random.randint(1,6)
if dado == 1:
tirar_roupa()
break
Ela explicou:
— Programação tem quatro bases:
- Dar nomes a números (variáveis)
- Condições (if)
- Repetições (loops)
- Funções (ações)
— O resto são só truques para facilitar.
Depois de uma hora de prática, ela fechou o notebook.
— Acabou.
— Já!?
— Sim. A base já foi.
Eu queria continuar.
Mas eu não tinha computador.
Ela perguntou:
— Você se formou na faculdade, né?
— Sim…
— Então vai lá agora.
— Agora?
— Bajula seu professor!
— Ele nem deve lembrar de mim…
— Cala a boca!
Tenta antes de desistir!
Ela sorriu como o sol.
— Vai dar certo.
Você é uma pessoa forte.
Eu corri até a universidade.
Oito anos depois.
Bati na porta do meu antigo professor.
Ele abriu.
— Quem é?
— Sou… Suda… um ex-aluno…
— Ah! Suda! Lembro de você!
Fiquei sem palavras.
Ele disse:
— Você era um aluno muito esforçado.
Eu nunca tinha pensado assim.
Ele me deixou usar um computador da universidade.
Quando ele saiu, eu sentei.
Lágrimas escorriam.
Talvez isso não leve a lugar nenhum.
Mas pela primeira vez…
Eu tinha um começo.
E agora…
Eu era invencível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário