Suas palavras estavam todas corretas.
No entanto, ele estava equivocado em uma coisa.
"O mundo não é tão generoso a ponto de aceitar alguém incapaz de aprender por si mesmo. Portanto, é melhor procurar outro caminho." Foi o que ele disse.
Que outro caminho seria esse?
Onde existe um caminho que funcione apenas esperando que os outros lhe deem as coisas?
Ele sabia.
Aquele lugar era ali mesmo.
O lugar onde se é contratado por um salário baixo, mal suficiente para sobreviver no dia seguinte, e se trabalha sob ordens de um chefe mais novo.
Ele ansiava por mudança.
Veio até ali na esperança de que hoje fosse o início de algo.
No final, tudo o que conseguiu foi ouvir verdades vindas de alguém provavelmente mais jovem do que ele.
Sim, ele estava equivocado.
Aquilo que ele disse, ninguém precisava lhe dizer ele mesmo era quem melhor sabia.
Trinta anos de idade.
Ele sabia muito bem por que era um fracasso.
Nem a sociedade, nem o ambiente tinham culpa.
A culpa era toda sua ele, que só sabia abrir a boca igual a um peixinho dourado e esperar pela comida.
Mesmo sabendo disso, não conseguia fazer nada.
Era tão patético que lhe dava náuseas.
Se fosse criança, talvez pudesse vomitar esse sentimento. Mas agora, já adulto, só lhe restava engoli-lo.
"..."
Sem dizer uma palavra, ele se levantou.
Foi quando, ao virar as costas…
"FUUUUI!!! AINDA BEEEM!!!"
Um volume tão alto que sua mente ficou em branco.
Um trovão gigantesco caiu num timing que, por um instante, ele chegou a pensar que havia partido de dentro de si mesmo.
"ANTIGO! ANTIGO! ANTIGO ANTIGO ANTIGO! ISSO É TÃO ANTIGO!"
A fonte do grito era a mulher responsável pelo atendimento.
Um berro tão ensurdecedor que era impossível imaginar vindo daquela pessoa que até então estivera sentada em silêncio. Ele, é claro, e também Suzuki, que conversava calmamente ao lado dela, ficaram boquiabertos.
"Ei, você!"
Ela apontou o dedo indicador na direção dele.
"É você! Está me ouvindo!?"
"E-estou…"
Ele respondeu, assustado.
Não fazia ideia do que estava acontecendo.
Enquanto ele se confundia, Suzuki tentou intervir.
"Satō-san, o que foi isso de repente?"
"Cala a boca! Fica quieto e olha!"
"Posso fazer isso não. Me explique."
"Esse papo de força de vontade do Ken-chan é antiquado! Ficar dando lição de moral todo satisfeito é brega demais! Quem mais sabe disso é ele mesmo! E o seu trabalho é ensinar a resolver isso!"
Cada palavra dela ecoava em seu peito.
O grito de todo o seu ser, sem questionamentos, fazia seu coração tremer.
O que era aquilo?
Uma emoção inexplicável, incompreensível, brotava dentro dele.
"Satō-san, aqui não aceitamos inexperientes. Esse é o único ponto inegociável. Mesmo que se ajude temporariamente alguém que não consegue começar nada por si mesmo, a longo prazo isso não será benéfico para a pessoa."
"Seu cego de merda!"
"Quê? Ce-go?"
Foi uma cena estranhamente satisfatória.
Suzuki não era uma pessoa má. Era alguém forte o suficiente para fazer o papel do "vilão" pensando no bem do outro. Ao mesmo tempo, era do tipo de pessoa que estava sempre acima dele. Vê-lo tão atônito foi, de alguma forma, revigorante.
"Ei, você!"
"S-sim!"
Ele se assustou novamente com a voz dela.
"Você já leu algum livro de introdução?"
"Bem… isso é…"
"Você já teve a experiência de não entender nada e fechar o livro devagar, não teve? Teve sim!"
"Bem… sim, mais ou menos…"
Ela continuava fazendo perguntas.
"Você tem computador?"
"… Não, não tenho."
Como se quisesse confirmar algo.
Como se quisesse validar uma hipótese que tinha em mente.
"Está arrependido?"
"… Como?"
"Depois de ter sido esculachado desse jeito, está arrependido?"
"Bem… mais ou menos…"
"Não ouvi direito!"
"…!"
Foi como acender um fósforo velho.
"… Estou arrependido, sim."
"Mais!"
Ela era o oposto dele.
Alguém do lado dos fortes, capazes de aprender por si mesmos.
Ele já havia ouvido sermões incontáveis vezes.
"Eu sei disso, porra." Guardava para si o latido de cachorro derrotado. O sentimento que só aumentava era o nojo de si mesmo, por continuar não fazendo nada. Até que, um dia, deixou de sentir qualquer coisa.
Por isso, era a primeira vez.
A primeira vez que palavras de um "forte" esquentavam seu peito.
"… Estou arrependido!"
"MAIS ainda!!"
Certamente, era a primeira vez na vida que ele colocava aquele sentimento em palavras.
"ESTOU ARREPENDIDO!!"
Ele sabia que aquilo não fazia sentido. Não achava que isso fosse mudar alguma coisa. No entanto, era agradável. Seu coração, que deveria estar gelado, ardia.
"Então vamos fazer!"
"Fazer o quê?"
"Vou te ensinar o básico agora! Senta aí!"
"S-sim!"
Ele se sentou novamente no sofá. Ela pegou papel e caneta e sentou ao seu lado. E então começou a ensinar.
"Aqui está uma moeda."
"..."
Ele olhou em silêncio para a moeda de cem ienes que ela segurava.
"Se eu jogar a moeda e der cara, eu tiro a roupa."
"Hã, vai tirar a roupa?"
"Para de criar expectativa, seu tarado! É uma analogia!"
É mesmo, ele riu, amarelo. Que porra era aquela?
Ela pigarreou e recomeçou.
"Em programação, fica assim:"
moeda = cara ou coroa
se moeda = cara
tirar_roupa()
"— Sim."
Ele assentiu, olhando para o que ela havia escrito no papel.
Ele entendia o que estava escrito. Certamente até uma criança entenderia. Mas não clicava. O que ele deveria entender a partir daquilo?
"Em Python, que está na moda, fica assim:"
moeda = random.randint(0, 1)
if moeda == 1:
tirar_roupa()
"— Sim."
Ainda tinha japonês misturado, mas já parecia um pouco mais com programação. É claro que, se perguntassem se ele entendia alguma coisa, a resposta continuava sendo não.
"Nesse programa, em metade das vezes você fica pelado."
"… É verdade."
"Como isso não é legal, vamos usar um dado."
dado = 1 até 6
se dado = 1
tirar_roupa()
"— Entendo…?"
"Sim. Agora reescreva isso em Python."
"Hã? Eu?"
Ela assentiu.
Ele pegou a caneta, confuso.
É claro que sua mão não se movia de imediato. Apesar de não ser nada difícil, seu cérebro simplesmente não funcionava.
Toc.
Ela bateu o dedo na mesa. Ele olhou. Ainda estava ali o pequeno programa que ela havia escrito há pouco.
Entendo. Se eu usar aquilo como referência…
dado = random.randint(1, 6)
if dado = 1:
tirar_roupa()
"Quase! No if, o sinal de igual é dois."
"Ah, certo, é assim então."
Com a correção, ele reescreveu.
Ela disse "Certo", satisfeita, e então:
"Basta uma vez?"
"… Como assim?"
"Você não precisa repetir o programa até tirar a roupa?"
"… Se eu responder isso, não vai ser assédio sexual?"
"Uau, seu tarado. Não tem jeito mesmo."
Ela disse num bom humor, e acrescentou "Repetir" no início do programa.
"O que você acha que acontece?"
"Vai repetir…?"
"Até quando?"
"Até quando? Bem… para sempre?"
"Resposta certa! Viu? Você tem talento, tem talento!"
"… É, obrigado."
Por que diabos estou tímido? Tenho trinta anos.
"Então, como fazer para terminar?"
"… Terminar?"
"Sim, terminar. É bem fácil."
Ele pegou a caneta novamente.
É claro que não sabia. Mas ela havia dito que era fácil.… Se "Repetir" faz repetir, então para terminar… talvez…
Ele escreveu "Terminar" no final do programa.
"Quase! Se escrever ali, termina na primeira vez!"
Ele pensou novamente. Se o lugar era importante…
Repetir
dado = random.randint(1, 6)
if dado == 1:
"Resposta certa!! Muito bem! Muito bem, muito bem!"
"… É, obrigado."
Para de ficar tímido, trintão.
"Se transformar isso num programa de verdade, fica assim:"
while 1:
dado = random.randint(1, 6)
if dado == 1:
Ele olhou para o programa que ela escreveu.
"Repetir" havia virado "while 1:", e "Terminar" havia virado "break".
De alguma forma, ele sentiu que começava a entender.
A ordem das frases não era diferente de escrever em japonês. Apenas algumas palavras haviam se transformado em outras, como while e if.
Seu coração se animou.
Se ela continuasse ensinando, talvez ele conseguisse entender.
"Pronto, acabou."
"Hã, acabou?"
"Uhum. Isso é todo o básico de programação."
"… Com isso?"
Ela não parecia estar brincando.
Enquanto ele se confundia, ela começou a explicar.
"O básico de programação são apenas quatro coisas: dar nome a números, dividir em condições usando 'se', repetir, e usar uma série de ações como 'tirar a roupa' como uma função. Todo o resto são pequenos truques para facilitar a escrita do programa. Não precisa saber."
Ele pensou no que ela disse.
De fato, naquele programa de tirar a roupa com o dado, existiam os quatro elementos que ela havia mencionado.
"Com licença, o que seria uma 'função'?"
"Pesquise você mesmo."
"Como?"
"Pode ser na internet. Pode ser num livro. De qualquer forma, pesquise por conta própria. Com certeza vai encontrar."
"Ah… sim."
Ele respondeu vazio, com a sensação de que o pouco que havia começado a entender estava desaparecendo.
"E portanto, aqui está um notebook."
"Ah, continua então."
A partir daí, a orientação continuou por cerca de uma hora.
Primeiro, ele escrevia o programa em japonês no papel e depois reescrevia em outra linguagem. Em seguida, executava o programa no computador para verificar se o que estava no papel estava correto. Repetiam esse processo.
É claro que só dava erro.
Toda vez, ela dizia: "Pesquisa". No começo, ele não sabia nem o que pesquisar, mas depois de receber dicas e repetir umas cinco vezes, pegou o jeito.
"Você usa computador no trabalho?"
"Sim, mais ou menos."
"Tem trabalho manual?"
"… Ah, é mesmo. Sim. Entendo. Então com isso…"
De repente, uma ideia veio à mente, e ele perguntou:
"Posso testar uma coisa?"
"Pode não."
Ela fechou o notebook com crueldade.
"O teste gratuito termina aqui."
"… É mesmo."
Ele sentiu o corpo coçar. Queria testar. Queria experimentar a ideia que havia tido.
Mas… não dava.
Não tinha computador. Também não tinha dinheiro para comprar um.
"Você fez faculdade, não fez?"
"… Sim, por assim dizer."
"Então vai lá agora!"
"Como assim, para a faculdade?"
Isso mesmo, ela respondeu.
"Puxe o saco do seu professor!"
"… Professor. Não sei se ele ainda se lembra de mim."
"Cala a boca! Tente antes de desistir!"
Aquelas palavras tão comuns fizeram seu coração saltar.
"Você não tem nada a perder. É invencível."
"… Ha ha, é mesmo."
Ele realmente achava que ela era uma pessoa extraordinária.
Palavras que não eram particularmente especiais, mas quando saíam da boca dela, transformavam-se em algo que batia no peito.
"Vai dar certo."
Ela disse com um sorriso radiante como o sol.
"Você consegue. Com certeza. Porque você é forte."
Ele prendeu a respiração.
Forte. Com base em quê, sabendo o quê, ela dizia aquilo? Ele não sabia. Mesmo sem saber, seu corpo esquentava. Suas emoções se alvoroçavam. Incontroláveis.
"Vamos, se não for rápido vai ter taxa extra! Cinquenta mil ienes!"
"Hã, é mesmo?"
"Sim, dez, nove, oi-to…"
Ele se levantou apressado.
Pegou suas coisas e foi praticamente expulso da sala.
Um instante antes de sair,
"Ah, muito obrigado!"
Conseguiu dizer essas palavras de agradecimento e saiu correndo.
O destino era a universidade.
Não achava que fosse conseguir algo lá. Era mais provável que fosse um esforço em vão. A parte racional de sua mente gritava que era desperdício de dinheiro de transporte. No entanto, não conseguia parar os pés.
— Tente antes de desistir!
As palavras dela não saíam de sua cabeça.
Por isso ele correu. Precisava agir antes que aquela pequena chama acesa em seu coração se apagasse.
*
"… Eu realmente vim."
Trinta anos. Fazia aproximadamente oito anos desde a última vez que estivera na universidade.
"… Tem gente mesmo no feriado."
Talvez fosse porque estava na hora do almoço.
O banco que ele mesmo usara algumas vezes quando era estudante. Alguns alunos conversavam ali.
Após pensar um pouco, começou a andar.
Seu destino era a sala do seminário. A sala daquele que, de certa forma, podia chamar de professor.
Será que ele ainda estava lá?
Será que sequer se lembrava dele?
Com muitas incertezas no peito, andou.
E então, o destino. Confirmou pela placa ao lado da porta que seu professor estava na sala, e bateu.
"Sim, diga~?"
Uma voz nostálgica, familiar.
"Com licença!"
Ele entrou na sala, cheio de energia, como se fosse começar uma entrevista.
"… Hum, quem seria?"
Uma reação natural.
Ele queria virar as costas e fugir.
— Você é invencível.
"Com licença, desculpe. Meu nome é Shuta, sou ex-aluno. Hoje eu…"
"Ah~, Shuta-kun. Lembro de você. Como vai?"
Ele perdeu a fala.
Ficou boquiaberto, olhando para seu professor.
"Ah, desculpe. Eu estava no meio da fala."
"… Ah, sim. Eu… gostaria de saber se posso usar um computador."
"Computador? Para quê?"
"Bem, para o trabalho… na verdade, quero estudar programação, então…"
"Ahh, entendi. Tá bom. Pode esperar um pouco."
Novamente, ele ficou boquiaberto. O que havia dito foi uma voz baixa e confusa. No entanto, seu professor, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, começou a guiá-lo.
Caminharam conversando.
O professor estava de bom humor.
Ao que parecia, ele gostava de ver o rosto de seus ex-alunos.
"Com licença, se não for falta de educação… como o senhor se lembrou de mim?"
"Claro que me lembro. Você era um aluno muito esforçado."
"… Era mesmo?"
"Era."
Ele não se lembrava disso.
Começou a pensar que talvez o professor estivesse confundindo com outra pessoa.
"Shuta-kun, você ganhava bolsa e ainda trabalhava em vários empregos. Esse tipo de aluno não é raro."
O professor disse, ainda de costas para ele.
"Mas alguém tão dedicado quanto você era raro. Entregava os trabalhos direitinho. Mesmo com sono, se esforçava para fazer anotações durante as aulas. Talvez sejam coisas óbvias. Mas quando se é professor por muito tempo, percebe-se que isso é especial."
Ele pensava que aquilo não tinha servido para nada.
"Você tinha algum sonho?"
— Achava que tinha gasto um dinheiro precioso, desperdiçado quatro anos, apenas comprado um diploma de ensino superior que não servia para nada.
"… Quero dar uma viagem para o Havaí para minha mãe."
"Ora, um belo sonho."
— Foram dias em que ele só listava razões para não fazer nada, apenas se rebaixando.
"Então, pode usar esse computador nas horas vagas. Se alguém perguntar algo, pode dizer que é meu aluno."
— Estava errado. Nada, absolutamente nada, havia sido em vão.
"… Sim. Muito obrigado."
Ele mordeu os lábios, pateticamente.
"Vá em frente."
"… Sim!"
Com um tapinha no ombro, o professor se foi.
Ele enxugou as lágrimas e tocou o teclado.
Fora apenas uma hora de orientação. Uma técnica superficial. Não achava que isso o levaria a lugar algum.
No entanto, havia ganhado um empurrão.
A única oportunidade talvez a primeira e a última de iniciar um desafio em toda a sua vida. Ele havia recebido o empurrão para começar.
"…!"
Mordeu os lábios. As lágrimas não paravam.
Se algum outro aluno visse aquilo, era caso de chamar a polícia.
Não ligava.
Não havia nada a temer.
Porque, agora, ele era invencível.
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